09/10/2014

Drácula: a imortalidade de Bram Stoker e suas criaturas

Para o mês do Halloween, a resenha que eu escrevi sobre um dos meus livros favoritos, encomendada pelo Ferds do Maldito Vivant e também publicada por lá :)


"Seu conjunto facial enquadrava-se no tipo aquilino - aliás, acentuadamente aquilino - graças ao destaque bastante característico de uma arcada nasal alta e fina, em contraste com os orifícios das narinas, arqueadas de forma peculiar. A testa era abaulada e os cabelos, muito profusos nas demais partes visíveis de sua cabeça, mostravam-se escassos, em especial, ao redor das têmporas. As sobrancelhas formavam um traço compacto, praticamente se encontrando por sobre a arcada do nariz e com fios longos que pareciam formar anéis, como se tivessem vida própria. Então, a boca... Até onde permanecia visível debaixo do basto bigode, revelava-se dura e de aspecto cruel, emoldurando dentes alvos e estranhamente pontiagudos."

Assim é descrito Drácula, personagem que nomeia o livro de Bram Stoker, publicado em 26 de maio de 1897. Vampiros já povoavam o imaginário europeu há muito tempo, mas foi o irlandês quem resolveu oficializar a imagem destas criaturas em um célebre romance epistolar (escrito em forma de cartas), tornando-se a principal referência quando se trata destes seres sobrenaturais.

A obra, inclusive, inspirou em 1922 a produção do longa Nosferatu. Na época, a viúva de Bram Stoker, percebendo-se de que este se tratava visivelmente de uma adaptação não autorizada, adquiriu (quase) todas as suas cópias e as destruiu, para que não “se aproveitassem da genialidade de seu marido sem o devido consentimento”. (Claro que seu esforço foi em vão, visto que ainda podemos assistir ao filme). 70 anos depois, também foi lançado o longa “Drácula de Bram Stoker”, com um maior apelo erótico e romântico, nem tão fiel. Atualmente, depois de tantas outras versões, Drácula permanece bastante conhecido. Já a história original, nem tanto.



O livro começa com o diário de Jhonatan Harker, jovem advogado de Londres que está a caminho da Transilvânia. Ele é noivo de Mina Murray, mocinha feminista à frente do seu tempo que passa as férias na casa de Lucy Westenra, sua amiga de infância rica bastante bajulada pelos homens da cidade. Jhonatan pretende negociar a venda de uma propriedade em Carfax para o Conde e, chegando à região, ao dizer para os habitantes locais onde pretende hospedar-se, percebe o pavor nos olhos deles. O fato de esta ser a véspera d’O Dia de Todos os Santos, quando “todos os espíritos maus estão soltos”, colabora para isso. Uma senhora, inclusive, entrega-lhe um crucifixo e implora-lhe para que não fique por muito tempo.

Em uma terra de pessoas extremamente religiosas e em meio ao suposto sobrenatural desconhecido, Jhonatan representa a racionalidade (vale considerar que o conflito razão x emoção era bastante recorrente na época em que o livro foi escrito). Achando tudo muito estranho, passa por outra viagem ainda mais esquisita até chegar ao castelo. Sem quaisquer empregados e de aparência peculiar, Drácula recebe efusivamente o convidado e emenda longas conversas sobre seus ancestrais e seus planos para a Inglaterra. De imediato, também, pede que o advogado escreva para Mina dizendo que pretende ficar lá por pelo menos um mês.

Com o tempo, Harker percebe que toda a enrolação do cliente é intencional: ele é agora um prisioneiro e todas as suas correspondências são interceptadas. Desobedecendo ao anfitrião, começa a explorar outros aposentos e acaba descobrindo o quarto das noivas de Drácula, tendo uma ideia dos horrores aos quais está exposto.


Enquanto isso, o vampiro está em Londres, levando caixões com a terra de seu país através de navios cujas tripulações somem misteriosamente. No diário de Mina, a tranquilidade dos dias de repouso é interrompida com a visão de uma estranha criatura debruçada sobre a sonâmbula Lucy. A jovem está noiva de Lorde Arthur Holmwood, por sua vez amigo de outros dois ex pretendentes da moça, Quincey P. Morris e Dr. Jack Seward.

O último, médico, está particularmente interessado no comportamento incomum de um de seus pacientes do hospital psiquiátrico, R.M. Renfield: o ancião doente está desenvolvendo hábitos estranhos e mencionando um “mestre”. Quando Lucy também começa a ter sintomas perturbadores por algum motivo desconhecido, Jack decide convocar a orientação de seu antigo professor, Abraham Van Helsing.

A partir daí, a trama se desenvolve brilhantemente, sempre revelada através dos diários de diversos personagens que, não sendo oniscientes, dão ao leitor a misteriosa sensação de que nem tudo o que acontece está sendo percebido.

Repleto de passagens sinistras, “Drácula” justifica seu grande reconhecimento como clássico e sua marca na Literatura, com um protagonista nem um pouco dotado de boas intenções que, não tão inexplicavelmente, conquista gerações até hoje. (♥)